Diziam que, naquele vale escondido entre montanhas, havia uma sequência de portas enigmáticas. Cada uma guardava uma revelação sobre a vida, mas não era qualquer um que conseguia atravessá-las. Curioso e determinado, Elias partiu rumo ao vale.
Ao chegar, deparou-se com um imenso paredão de pedra, onde várias portas estavam enfileiradas. Cada porta era diferente — umas feitas de madeira antiga, outras de ferro enferrujado, algumas adornadas com ouro e outras com símbolos que ele não compreendia.
Elias se aproximou da primeira porta. Havia um letreiro: “Porta do Passado”. Ele a empurrou com esforço, e ela rangeu, abrindo-se lentamente. Lá dentro, viu cenas de sua vida antiga — erros, arrependimentos, saudades. Ficou ali um tempo, contemplando, mas logo entendeu que não deveria ficar preso ao que já passou. Saiu e seguiu para a próxima.
A segunda porta era a “Porta do Futuro”. Ele a abriu com facilidade. Vislumbres de possibilidades surgiram: sonhos realizados, outros desfeitos. Mas tudo era instável, incerto. Aquilo despertou inquietação, e ele decidiu seguir em frente.
Havia ainda a “Porta da Aparência”, a “Porta da Vaidade”, a “Porta da Culpa”, e muitas outras. Algumas Elias conseguiu abrir, outras estavam trancadas, e ele nada pôde fazer.
Por fim, chegou diante de uma porta simples. Sem enfeites. De madeira clara, envelhecida. Acima dela, uma inscrição:
“Esta porta só se abre por dentro.”
Elias tentou empurrá-la. Nada. Tentou girar a maçaneta, forçar a tranca, empurrar com o ombro. Nada funcionava.
Confuso, ele se afastou e sentou-se diante dela. Observou o entorno. O silêncio era total. Então percebeu: não havia fechadura do lado de fora. Apenas uma fina abertura por onde se via uma luz suave vindo de dentro.
Frustrado, Elias murmurou:
— De que adianta uma porta que não posso abrir?
Nesse momento, uma voz serena pareceu sussurrar em seu coração:
— Essa não é uma porta qualquer. É a porta do seu interior. Ela só se abre quando você permitir. De dentro para fora.
Elias ficou imóvel. Percebeu, então, que sua jornada externa o havia distraído do que mais importava: olhar para dentro de si. Respirou fundo, fechou os olhos e se voltou para dentro — encarando suas feridas, seus medos, suas defesas, seu orgulho.
Aos poucos, algo mudou. Ele ouviu um leve estalo.
Quando abriu os olhos, a porta estava entreaberta. Uma luz dourada escapava pelas frestas, quente e acolhedora.
Elias sorriu.
Não foi a força, nem o conhecimento, nem a persistência que abriu aquela porta. Foi a rendição. A disposição de permitir que a transformação começasse dentro dele.
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