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O Burrinho Que Não Se Deixou Vencer

Em uma aldeia tranquila do interior da Rússia, cercada por bosques verdejantes e campos dourados de trigo, vivia um velho camponês chamado Ivan. 

Ele era um homem simples, de mãos calejadas e olhar sereno, que dedicava seus dias à terra, cultivando com paciência e amor. bela, extensa e longínqua fazenda viviam diversos animais.

Cada animal era responsável por um conjunto de atividades, que alocadas conforme as características e competências de cada bicho, garantiam harmonia e organização àquele ambiente.

Os burros, por exemplo, eram responsáveis por transportar as cargas de um local a outro. Essas cargas geralmente envolviam insumos, equipamentos ou produtos decorrentes das colheitas. Seus principais fornecedores eram os bois e as cabras, responsáveis pelo preparo do solo e plantio; e os cavalos, responsáveis pela colheita do que era produzido.

O maior desejo de um burrinho era ser promovido a colhedor, o que lhe equipararia a um cavalo, dotando-o de maior remuneração e prestígio.

Os cavalos eram bastante rigorosos na escolha do time. Para admissão de um novo membro eles aplicavam um teste que mesclava atividades físicas - de força e resistência, atividades técnicas – de experiência e conhecimento e competências comportamentais – de personalidade e atitude.

Os burrinhos Pedro e João eram os mais experientes do time do transporte de cargas e por isso estavam ansiosos por uma promoção para a função de colhedor. Aliás, as últimas promoções para esta função sempre envolveram outros animais da fazenda, como as zebras e os camelos, o que gerava grande frustração para os burrinhos.

Certo dia, Juninho, um burrinho órfão, que fora encontrado próximo da fazenda alguns anos antes, iniciou suas atividades laborais no time de Pedro e João. Juninho era muito esforçado, costumava não se envolver em discussões, reclamava pouco e tentava tirar aprendizado de tudo, inclusive, das dificuldades que a vida lhe impunha.

Já nas primeiras semanas de trabalho Juninho demonstrou grande entusiasmo e vigor nas tarefas desempenhadas, realizando, assim, o transporte do material que lhe fora repassado com grande maestria.

Nas semanas seguintes o desempenho foi ainda melhor.

Aos poucos o bom desempenho de Juninho começou a despertar ciúmes nos outros dois burrinhos. Como Juninho era de poucas palavras, Pedro e João começaram a desconfiar sobre alguma eventual pretensão do amigo.

Nesse contexto de dúvidas e preocupações, Pedro então indagou a João:

- João, você não acha que esse burrinho está querendo chamar a atenção dos cavalos? Aliás, ele nunca reclama das cargas, nunca se envolve em discussões ou brigas, nem sequer conversa durante o trabalho. Isso não lhe soa estranho?

Pedro, com bastante convicção, então respondeu:

- João, não tenho dúvidas de que ele quer nos passar a perna. Mas não se preocupe, nos já fazemos este trabalho há muito tempo, temos experiência e conhecimento que ele nunca terá. Além do mais, podemos desencorajá-lo a querer ser um colhedor. Tenho uma ideia!

João se mostrou curioso com a ideia de Pedro e pediu-lhe detalhes.

Em resumo, João e Pedro resolveram dificultar o trabalho de Juninho, dando a ele as cargas mais pesadas e os itinerários mais difíceis. Vislumbravam assim um burrinho cansado, desmotivado e desestimulado para tentar qualquer outra função.

E assim aconteceu.

Nas semanas que se sucederam, Juninho recebeu as cargas mais pesadas e andou pelos trajetos mais difíceis. João e Pedro, por sua vez, pegaram as cargas mais leves e os caminhos mais fáceis.

Juninho, apesar de perceber as mudanças não se queixou aos amigos e nem sequer demonstrou qualquer sinal de antipatia ou descontentamento. Ele simplesmente seguiu com o seu trabalho.

As semanas se passaram e a dificuldades naturalmente apareceram. Por várias vezes Juninho desabou de cansaço durante o percurso, teve que parar para ganhar fôlego e, algumas vezes, até sofreu pequenos acidentes dadas as condições da estrada. Mas apesar dos contratempos ele sempre cumpriu a sua missão, sem atrasos e sem avarias nas cargas.

O tempo foi passando...

Pedro e João aproveitavam as vantagens que possuíam em relação a Juninho, o que lhes dava mais tempo, para observar o trabalho dos cavalos e buscar aliados que pudessem ajudá-los de alguma forma a conquistar a tão almejada função.

Juninho, por sua vez, tinha tempo apenas para se concentrar em seu trabalho. Todavia, com o passar do tempo, ele acabou ganhando robustez e resistência física, dadas as pesadas cargas que transportava, e conhecimento técnico, dadas as longas e diversificadas rotas e solos em que trilhava.

Certo dia chegou para os burrinhos uma carta do departamento dos cavalos. Tratava-se de mais um convite para participação do processo seletivo de colhedor.  Pedro e João ficaram atônitos, acreditando ser esta a oportunidade de suas vidas. Como o convite era para todo o departamento de burrinhos da fazenda, qualquer candidato poderia participar do processo.

Desta forma, todos os burrinhos se inscreveram, exceto Juninho que, em decorrência de uma sabotagem de comunicação arquitetada por Pedro e João, acabou ficando fora do processo.

Os testes para a tão almejada função de colhedor aconteceram durante uma semana. Vários animais participaram. Depois de um longo e criterioso processo, os cavalos, então, convocaram todos os participantes para divulgação do resultado.

O cavalo responsável pelo processo, então, deu início ao anúncio:

- Senhores, quero primeiramente agradecer a todos que participaram deste tão importante processo. O processo foi bastante rigoroso e difícil, porém, chegamos a um escolhido. Pela primeira vez trata-se de um burrinho da fazenda...

Nessa hora Pedro e João se entreolharam e sorriram, imaginando que esse era o tão sonhado momento que aguardavam.

E o cavalo continuou:

- Farei uma breve explicação do processo e na sequência anunciarei o nome do escolhido.

Então, tudo começou a partir de um fato que nos despertou curiosidade. Pela primeira vez em muito tempo, os índices de atraso e avaria de nossas entregas ficaram zerados. Isso nos chamou atenção. Fomos investigar o que havia mudado. Analisamos o processo de transporte das cargas, que é responsabilidades dos burros. Notamos que as cargas mais pesadas e difíceis estavam sob responsabilidade, quase sempre, de um mesmo burrinho. Para nossa surpresa ele nem sequer se inscreveu no processo. Então, nós fomos até ele, para conhecê-lo melhor.  E para nossa surpresa ainda maior descobrimos que ele sequer ficou sabendo do mesmo. Então nós o convidamos pessoalmente. Ele prontamente aceitou.

Nesta hora Pedro e João quase caíram para trás...

E o cavalo anunciante continuou:

- Realizamos todos os testes com ele, assim como fizemos com todos os demais participantes. E o resultado foi o seguinte. Na parte física, que envolvia força e resistência, ele obteve os melhores resultados dentre todos os participantes. Na parte técnica, ele apresentou resultados intermediários. E na parte comportamental, que foi decisiva, ele nos apresentou algo incrível, algo muito mais valioso que a experiência e o conhecimento técnico. Ele nos mostrou caráter. Contou-nos que para cada obstáculo que a vida lhe colocava, ele procurava meios de superá-lo. Assim, ele nunca buscou superar alguém, mas somente a si mesmo, pois isso lhe tornava cada vez mais forte. E desta forma, o Sr. Juninho, conquistou a melhor pontuação geral e a vaga.

Todos ali presentes aplaudiram o resultado e festejaram a escolha de Juninho.

E assim Juninho se tornou o primeiro burrinho a ser colhedor naquela fazenda, passando a integrar o time dos cavalos.

Moral da história: A maldade é uma correspondência que sempre volta para o remetente. Torne-se tão bom naquilo que faz a ponto de não precisar se preocupar com eventuais concorrentes. Deixe que eles se preocupem com você.
O tempo desmascara as aparências, revela as falsidades e expõe o caráter.

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